<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905</id><updated>2011-10-01T06:19:09.429-07:00</updated><title type='text'>Sheherazade</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>21</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-1598711772027784488</id><published>2011-05-29T17:04:00.000-07:00</published><updated>2011-05-29T17:06:44.017-07:00</updated><title type='text'>SILÊNCIO NO RÁDIO</title><content type='html'>Pensei muito antes de tomar a decisão. Até que resolvi contar essa história triste, não garanto se totalmente verdadeira ou se apenas provável, equívoca como a vida cisma de ser, às vezes. Aconteceu lá no norte, bem perto de onde o estado termina. A cidadezinha tinha clube, pracinhas despovoadas e feias, ruas de pedra e até uma estação de rádio. Locutores por ali tinham status de pop star. Me pergunto, às vezes, como essas vozes eram descobertas e formadas, se é que havia formação ou se o talento jorrava, espontâneo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O programa De Você Para Você encerrava a manhã. O jovem locutor, com aquela voz cristalina e quente, carinhosa e serena - tão jovem! –, sempre impecável na escolha das palavras, na dicção e pronúncia. Música pedida e música oferecida era prontamente executada. Na pausa para os comerciais, a mesma voz vendendo serviços e xarope; logo, mais música, a voz comunicando em meio à manhã. Do lado de lá do dial, ouvidos atentos, coração a mil, alguém passou a desejar aquela voz, pensando nela noite e dia, no hálito que saia junto com as palavras sussurradas ao ouvido, só para si, de mim pra você, de você pra mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Várias tentativas foram feitas, todas frustradas. Tudo bem, ela sabia que a natureza não lhe fora muito generosa, mas ele sequer a conhecia; a ternura não valeria mais que a baixa estatura, o peso excessivo, as bochechas infladas e redondas e aquele par de olhos nublados? Desde o primeiro contato, a voz  fora sempre evasiva e reticente, não muito afável, fugidia, refugando o encontro. Mas no rádio, não; no rádio era sempre a mesma voz deliciosa e instigante que parecia chamar por ela – como era possível que não chamasse amorosamente por ela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aquele dia sombrio, insuportavelmente duro e áspero, em que lhe batera o telefone na cara!  Naquele momento, para ela, selava-se o destino da voz. Saiu de casa feito uma louca, mas só por dentro; por fora ninguém diria... O programa terminava, mas já não era como das outras vezes. Sabia onde ficava a casa dele. Nenhuma lágrima rolou dos olhos cinzentos. O rosado tornou-se pálido no rosto, a garganta ardia, ouviu ruídos estranhos e gritos soturnos. A última sequência musical, os comerciais, as considerações finais, o moço deixou a emissora e rumou para casa. A mãe provavelmente esperava com almoço quentinho e mesa quase farta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abria o portão ainda pode ouvir o estampido. Logo a mancha vermelha encharcou a camisa clara, transbordou pelo peito, empoçando na grama verde do jardim. No auge da comoção (o Diretor da emissora, inclusive, prometeu à mãe alguns meses do salário do filho, por conta), o programa De Você Para Você, chegou a ser suspenso! Depois voltou, e a mãe compareceu à reestréia em homenagem ao filho. Na ocasião, declarou em meio às lágrimas (e com uma voz que lembrava alguém): “O que mais dói é saber que meu filho morreu com fome!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisas de mãe! Que, aliás, foi vista com um pequeno farnel, próximo ao cemiteriozinho do lugar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-1598711772027784488?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/1598711772027784488/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=1598711772027784488&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/1598711772027784488'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/1598711772027784488'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2011/05/silencio-no-radio.html' title='SILÊNCIO NO RÁDIO'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-8781462441629440514</id><published>2010-12-29T04:44:00.000-08:00</published><updated>2010-12-29T04:46:01.376-08:00</updated><title type='text'>A ÁRVORE É O NATAL</title><content type='html'>Desci a ladeirinha embalada. Trazia de cor as instruções: um galho seco, alguns gramas de algodão sem peso, umas caixas de fósforo dissimuladas para presente, um coração que batia no compasso da descoberta. Aprendi a fazer um natal, aprendi o que era o natal! Nunca pensei que fosse coisa que só se aprendesse fazendo, era minha primeira vez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Qual foi sua primeira referência de natal?”, ele me perguntou, meio intrigado e instigante. Por certo tinha lá suas lembranças pessoais, e me perguntava pela chance de tirá-las de dentro da caixinha da memória. Ou talvez não, talvez quisesse mesmo conhecer algo de mim que nem mesmo eu conhecia expressamente. O amor tem dessas coisas de poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei pensando e pensando, e só vinha aquela imagem da improvisação da árvore,  uma imagem sem folhas e frutos, ressecada como o próprio galho que apanhei lá no quintal. Acho que depois de pronto, gostei; sei lá, não sabia direito que lidava com costumes, tradições, essas coisas de antes; era, para mim, mais novidade que recordação. Mas ainda faltava alguma coisa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade nunca havíamos falado naquilo antes, nem na família, nem na vila, muito menos entre amigas. Enfim, natal não era uma coisa falada, nem vivida. Dizem que quando algo não está na linguagem, então não existe. O que era Jesus Cristo para nós, daquele lugar sem natal? Um dia, uma professora vinda de fora nos ensinou a fazer a árvore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que a árvore trouxe o natal. Agora me lembro de meu pai compartilhando a busca pelo melhor pedaço de árvore, no mato lá fora. Distribuindo a neve de algodão pelos galhos ressequidos. Envolvendo caixinhas de fósforo em papéis coloridos. Acho que me lembro. Meu pai fazendo de mim a menina que tinha uma árvore, a menina mais feliz daquela vila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me lembro de sapatinhos na janela e presentes; de neve e trenós puxados por renas galhudas, porque na vila não nevava e os burrinhos trabalhavam muito durante o dia; de bom velhinho de longas barbas brancas, que não fosse Filhinho Rosa, o mendigo; minha casa não tinha chaminé, não havia ceia com nozes e perus, porque meu pai simplesmente não tinha dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele ano, coloquei sobre a mesinha da sala uma coisa maltrapilha, espectral, ao mesmo tempo rude e tão frágil, um artefato pós-moderno que nos atirava para além do que antes  talvez fosse a nossa estranha modernidade. Achei bem feio, na verdade, a nossa árvore, mas não disse nada, sei lá, algo me dizia que não sabíamos muito bem o significado daquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A árvore é o natal, hoje eu sei, nossa sala uma outra manjedoura, e agora eu tenho esse poder que o amor concedeu, de fundar memória onde só existia ausência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-8781462441629440514?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/8781462441629440514/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=8781462441629440514&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/8781462441629440514'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/8781462441629440514'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2010/12/arvore-e-o-natal.html' title='A ÁRVORE É O NATAL'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-8524147113770423883</id><published>2010-01-23T15:37:00.000-08:00</published><updated>2010-01-23T15:40:42.182-08:00</updated><title type='text'>PASSOU UM FILME NOIR</title><content type='html'>Fui buscar uma brisa fresca na janela do apartamento – os dias andam de um calor atordoante por aqui! – e, sabe-se lá por que cargas d’água, lembrei-me dela. Mais precisamente, sem pretender qualquer resposta definitiva, perguntei-me por ela, se vivia, se ensinava ainda, se já havia morrido. O nome dela era Rilma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para nós, normalistas em ebulição, chamávamos dona Rilma. Naquela altura dos anos 1970, cheias de esperança e arrebatamento diante da iminente chegada à profissão, um traço nos condenava à desconfortável comunhão com dona Rilma: o fato de sermos mulheres, talvez mais do que a vocação comum, ainda que por modos tão diversos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, vamos a ela. Parecia ter nascido antiga, não velha, exatamente, ultrapassada, talvez. Tinha seus 38, 40 anos, se é que posso avaliar daqui dessa distância que hoje se abriu entre nós. Não parecia vaidosa, nada que não bastasse um batom carmim mal traçado sobre os lábios grossos, emoldurando e borrando dentes claros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morava numa casa antiga e mal cuidada, de muro baixo, exatamente em frente ao portão da escola, fato que, aliás, expunha feito um nervo sua rotina de dona-de-casa. A filharada barulhenta, o marido invisível, ela grandona, mulher opulenta de cabelos cacheados e corte irregular, rente ao queixo, sempre com um ar desleixado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, ela toda, visto de longe, não parecia primar pelo asseio ou capricho. Chamada pela campainha da escola soando insistente para o início da aula, Rilma largava a cozinha ou o tanque de roupas, secava rapidamente as mãos na barra da saia, saía porta afora e ia dar conta de sua difícil tarefa de nos educar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrava lentamente pela sala, o pensamento distante, o olhar brotando de uns olhos negros, misteriosamente tristes, parecia atriz de filme noir em preto e branco ou sépia, quando muito, por mais que os vestidos fossem floridos e as roupas antiquadas, avessas à moda por opção ou simples descaso. Era uma mulher inteligente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre me pareceu que tivesse um mundo perdido dentro de si. Uma Atlântida no fundo das águas barrentas, querendo emergir. Um infinito particular em que a vaidade passava ao largo. Sapatos, brincos e roupas, exceto o batom, não tinham lá relevância. Era sensível, eu sabia. Talvez só eu percebesse e respeitasse seu fundo falso, as meninas sempre se referindo a ela com certa crueldade, como se fosse plana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Psicologia da Educação era sua disciplina. Pouco aprendi do que falava; quando ela entrava, eu saía para um mundo de suposições; quem seria aquela mulher tão estranha? Lembro, aliás, de uma única coisa que ensinava: a história do cão de Pavlov e a teoria dos reflexos condicionados: alimentado sempre que soava a campainha, o cão salivava a cada novo toque, mesmo na ausência do alimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando para a imagem dela guardada num canto da memória, lembrando de um tempo leve, com textura, cheiro, sabor e cor, mas irremediavelmente perdido no passado, pareço salivar também, agora, quando uma campainha distante soa em meus ouvidos quase ao fim de mais um dia, a um ponto de encerrar essa história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-8524147113770423883?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/8524147113770423883/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=8524147113770423883&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/8524147113770423883'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/8524147113770423883'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2010/01/passou-um-filme-noir.html' title='PASSOU UM FILME NOIR'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-5991751523170640141</id><published>2009-10-22T07:01:00.000-07:00</published><updated>2009-10-22T07:06:00.162-07:00</updated><title type='text'>ÁGUAS BEM PASSADAS</title><content type='html'>Decididamente águas passadas não movem meus moinhos. Andei pensando que nos tornamos mais parecidos com nossos pais, na medida em que o tempo passa. Na verdade, seres do remendo, vamos compondo nossa colcha de fuxicos. Da minha mãe vejo num relance de espelhos o rosto redondo, de olhar longínquo e soberbas olheiras. E claro, a mania peculiar de contar histórias: detalhadamente, com cheirosos temperos de humor. Eu também gosto disso, de falar das gentes, seus modos, suas marcas, tudo num tempo que pode ser passado, presente ou de inventar futuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do meu pai, entre as tantas tramas dessa peça, guardo uma intolerância com o passado. Melhor dizendo, uma intolerância com saudosismos e conversas lacrimosas, cheias de melancolia, como tanta gente faz. Parece que tudo aconteceu ontem, não naquele passado remoto. Vejo sua reação brusca recusando lembranças empoeiradas. Sábio ao seu modo positivo, esgueirava-se sem desculpas ou ia direto ao ponto: &lt;em&gt;– O que passou, passou...&lt;/em&gt; Na minha criativa meninice achava aquilo muito instigante: inventava em meu pai um passado estranho, repleto de verdades inconfessáveis. Pura fantasia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje que ando rondando por ali, pelo que chamam a &lt;em&gt;idade da razão&lt;/em&gt;, continuo fantasiosa, mas me ponho mais de acordo com meu pai. A vida urge e o vento varre lá fora. Tudo é movimento ágil, derramando-se ao longo dos dias. Como o leite pelo chão, não há como devolvê-lo de volta ao pote. Uma torrente de acontecimentos, de fatos e lendas, destinos e sentimentos, nada nunca é estanque. Mesmo aprisionada em fotos, vídeos, flashes de câmeras e memórias refeitas, a vida anda sobre trilhos lubrificados, desliza sobre o espelho das águas. Além, muito além de nossa tola tentativa e de nossa incapacidade de reter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso vou assim, lépida no presente e faminta de futuro. Sempre pronta a levantar acampamento nas horas mais altas. Sempre disposta a apagar fogueiras e varrer as brasas e as pistas com os próprios pés. E seguir adiante, deixando para trás coisas boas e também ruins. Basta que elas me sigam: não as carrego comigo. Ou que fiquem perdidas na poeira da vida que vivi. Sigo em frente, ávida por novas paragens, mais frescas estâncias, riachos de águas recentes. Aos meus filhos talvez deixe essa curiosa virtude de não remoer lembranças, nunca. De me deleitar com o presente, deixar fluir o passado e inventar o futuro. Caberá a cada um deles a escolha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haverão de querer os cacos que ofereço para compor os seus próprios vitrais?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-5991751523170640141?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/5991751523170640141/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=5991751523170640141&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/5991751523170640141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/5991751523170640141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2009/10/aguas-bem-passadas.html' title='ÁGUAS BEM PASSADAS'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-3655228788179727792</id><published>2009-09-10T07:43:00.000-07:00</published><updated>2009-09-10T07:49:16.112-07:00</updated><title type='text'>A VIDA NÃO É UM LIVRO</title><content type='html'>Desci as escadas e já na rua observei que a cidade havia sido tomada por uma estranha névoa, uma atmosfera muito antiga, a cidade em sépia, tão igual e tão distante de tudo que sempre fora, quase perdida como Avalon entre as brumas. Por certo alguma providência, a divina Mão, quem sabe, preparava o cenário de um reencontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não seria a primeira vez que veria Tereza. Nossas vidas se encontraram faz muito tempo, mas a correnteza levou... Essa era a questão: um reencontro quinze anos rio abaixo. Sim, quinze anos com seu ritmo próprio, ora lento, ora veloz, entre ligeiros contatos e frustradas tentativas de religar as pontas do que havia escapado. Quinze anos é muito tempo e tudo havia sido inútil, até então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez acho que é pra valer! Voltei a morar na mesma cidade, Niterói ainda estava ali e ela também. De repente, cruzamos nossos passos apressados, quase tropeçamos na Pedra de Itapuca. Um susto, a surpresa e lá estávamos feito crianças roubando mútuas histórias. Faltava fôlego! Afinal, era tanta coisa que o tempo furtara. Lembramos na última hora que telefones existem, trocamos números e ficamos a espera...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto, em uma semana estava tudo marcado. Confesso que o coração andava meio sobressaltado. Um coração nostálgico, amolecido, girando entre rodas gigantes, saias de baianas, moinhos de vento. As lembranças iam e vinham, desconfiadas feito pombas famintas surpreendidas no chão. Será que ela também pensava nesse encontro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do táxi liguei para ela e no telefone sua voz parecia cada vez mais próxima! Ela aguardava numa esquina: quinze anos, afinal, não foram mais que um demorado engarrafamento. A vida e ela, com seus olhos em stand by, de pé sobre as próprias pernas, pernas de Tereza que o poeta celebrou, mais a cidade e a esquina...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tereza entrou falante no carro, disfarçava a tensão. Frases de efeito, piadas de arquivo, tentativas vãs de emendar conversa, logo abortadas. Não estava na hora ainda, mas já chegaria. No bar, enfim, as palavras e a sede e o chope foram aos poucos restabelecendo a alquimia da amizade. Sim, dessa entidade chamada amigo que a gente reconhece sempre, que bota aspas no tempo. Amigos, esses seres dignos de fé!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu queria mais! Queria saber o que estava escondido lá no fundo da bruma que havia envolvido a cidade, a mesma bruma que julguei perceber nos olhos de Tereza. Enquanto ela falava dos homens que se foram e do dinheiro que não juntou, aquilo tudo foi se tornando espesso, adensando um sussurro de experiência. Sim, um lamento de experiência pesando toneladas de razões...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trovões e raios cruzaram o céu dos olhos dela. Dos meus solidários olhos, desceram tímidas gotas que se perderam na liquidez do sereno, ninguém viu. Deixei Tereza em casa lá pelas tantas, já bem tarde, quando só a cidade e os deuses não dormem. Saciada de lembrança, voltei para casa e pousei a cabeça no frio bom do travesseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhei que na travessa onde ainda vive Tereza, acho que só nela, desceu uma forte enxurrada naquela noite. O dia seguinte amanheceu claro e azul, prometendo alvíssaras no próximo capítulo do infinito livro das revelações de Tereza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-3655228788179727792?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/3655228788179727792/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=3655228788179727792&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/3655228788179727792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/3655228788179727792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2009/09/vida-nao-e-um-livro.html' title='A VIDA NÃO É UM LIVRO'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-7813563881095472943</id><published>2009-05-19T19:11:00.000-07:00</published><updated>2009-05-19T19:20:02.201-07:00</updated><title type='text'>PROGRAMA DE ÍNDIOS (ou a outra lição de mestre Darcy)</title><content type='html'>Ideologia: ainda há quem queira alguma pra viver?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, como foi ingênua nossa crença, por ela nos atiramos na miúda política do interior. Meu marido era professor, fora eleito vereador e, como aquilo não tinha porto, era candidato a deputado. Pulmões cheios de ar e cigarros para gritar por uma classe, por uma esperançazinha de tudo fazer diferente, para mais e para melhor, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso é assunto para outras longas e controvertidas conversas. Quem sabe um dia não faço história delas... Hoje gostaria de contar uma lição que essa curta passagem pela política – muito digna, muito honrosa, mas infeliz e decepcionante para ele – trouxe para mim, particularmente, que nem eu nem ele pudemos esquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No agito de umas eleições recebíamos visitas ilustres. Eram candidatos perseguindo eleitores, procurando partidários mais comprometidos que não inflacionassem seus cobiçados votos, enfim, essas coisas que hoje todo mundo mais ou menos sabe. Não sabíamos, naquela época, mas fomos aprendendo as coisas por dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquelas tardes e noites cheias de surpresas, uma foi especial. Soubemos longamente da visita dele, articulada por prestígios e poderes locais. Chegaria para a reunião das lideranças, o discurso e o comício. Seria oficialmente recebido pelo presidente do partido, que ofereceria um reservado jantar, com as pompas que lhe cabiam. Fomos também nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que sabia, em termos, de sua importância na cena intelectual do Brasil. Mas não avaliava bem o que seria ver de perto, ouvir os sons e reconhecer pelo tato de um beijo no rosto, aquela pessoa falante. Falante e fascinante! Sem mais delongas, estou falando de Darcy Ribeiro. Mas, qual Darcy, o intelectual, o político brizolista ou o indigenista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite estava só começando e todos agitadíssimos disputavam a cadeira mais próxima da dele. Quem sabe um olhar mais demorado, uma aprovação, o ouvido dele para as vantagens e as balelas mais mirabolantes da politicagem local. Observava de longe, meio atônita e um tanto perdida... Fui me sentar diante da televisão na sala, para distrair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Distraída estava quando invade a sala o séquito de ávidos correligionários: “Aonde vai, Professor?” Darcy à frente dizia: “Agora, vou assistir Pantanal. E vou me sentar ao lado desta bela mulher de botas longas”. A “bela mulher” – acredite, eu juro! – era eu. “Quando acabar a novela, retomamos a reunião”. Pode imaginar meu desconforto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali estava eu, dividindo o sofá com uma das figuras mais respeitadas e brilhantes da intelectualidade brasileira daquele século, assistindo novela! Sofri vertigem, carecia urgentemente de frases e mensagens inteligentes... Ele devia perceber minha angústia. Tentava relaxar com aquelas conhecidas brincadeiras de que jamais morreria de pneumonia dupla. Enfim, quem precisava de assunto ao lado do professor Darcy?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente ele assumiu o leme do barco, ou melhor, da chalana, e começou a falar da novela. Seus olhinhos sob as grossas sobrancelhas brilhavam com as deslumbrantes imagens do Pantanal. Ele falava de sua vida com os índios, da sua existência mágica. Sua alegria era contagiante e eu me vi rindo como numa conversa de comadres. Raposas e políticos se acotovelavam ao redor do sofá, ansiosos e impotentes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Darcy queria ver novela e falar de suas aprendizagens e descobertas no convívio com os índios. No auge da ansiedade, enquanto na novela o marido descobria a traição da mulher, nosso líder partidário regional tentou, de maneira pouco feliz, é bem verdade, se mostrar nos seus princípios. Cheio de empáfia, arriscou o comentário: “Eu não traio! Nem meu partido, nem meu eleitor, nem minha mulher!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mestre Darcy, atropelando as palavras, como sempre, rapidamente retrucou: “Pois eu não traio minha vontade, minha verdade, nem meus instintos. Eu não traio a mim mesmo”. Um longo silêncio, incômodo e didático, tomou conta da sala. Professor Darcy acabara de ensinar mais uma lição! Foi assim que ele morreu, não traindo, sobretudo, o desmedido amor que tinha por si mesmo e por este imenso Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, como aprendi sobre ideologias de viver, naquela longa noite. Obrigada, Mestre!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-7813563881095472943?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/7813563881095472943/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=7813563881095472943&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/7813563881095472943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/7813563881095472943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2009/05/programa-de-indios-ou-outra-licao-de_19.html' title='PROGRAMA DE ÍNDIOS (ou a outra lição de mestre Darcy)'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-1661696505945564685</id><published>2008-08-14T08:04:00.000-07:00</published><updated>2008-08-14T08:15:29.607-07:00</updated><title type='text'>AS PERNAS DA MENTIRA</title><content type='html'>Era sempre no finzinho de tarde que eles chegavam, quando o café borbulhava no grande coador de flanela, precipitando-se pela boca do bule de alumínio. Pronto o café, um bico de galo arrematado em crochê evitava as moscas, enfeitava e perfumava tudo bem ali, em cima do fogão à lenha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De banho tomado, nos acomodávamos empoleirados em braços de cadeiras e banquinhos, agachados ou mesmo despossuídos pelo chão. Eles apontavam lá no terreiro, entre a casa e a jaqueira que brotava imensa, com suas raízes alongando-se como serpentes, ameaçando engolir os visitantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegavam calmamente. Pareciam nobres pelos trajes pouco comuns ao nosso gosto e costume. Ele sempre de chapéu, uma bengala imponente nas mãos, bigode grosso e grisalho. Ouvíamos a voz forte que mais impunha do que desejava, repetidamente, um “boa noite, boa noite!”, desde longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela era doçura de pela clara, cabelos lisos sempre presos, cuidadosamente retorcidos num coque elegante que lhe caía muito bem. Usava camafeu e brincos de marcassita. Vestia-se com sóbria elegância e falava baixo, serenamente. Tinha olhos vivos como os de uma menina que o tempo perdera de conta, mas não de vista...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela época, eu não conhecia ainda Monteiro Lobato. Intuía que eles eram pessoas dos livros, de imagem, fala e perfume. Percebo agora que eles saíram de um conto, do Sítio mais acertadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegavam, finalmente! E se instalavam nas melhores cadeiras, eram visitas afinal! Então começava uma longa conversa, ou melhor, um longo monólogo que ninguém atrevia contrastar. Seu Arnaldo falava de um modo de assustar, em ambas as possibilidades de significado que essa palavra tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha preferência pelas histórias de terror. Era um caçador, daqueles que guardam na sala a cabeça empalhada dos animais abatidos, estranhos troféus, sei lá, meio patéticos, nunca entendi direito... Tinha início, então, a mentirosa sessão de narrativas, pura irrealidade que divertia, tornando menos dura a realidade insuperável daquela Macondo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Arnaldo e Dona Cecília (um nome que vibrava entre coisas, porcelana, prata e azul), Seu Arnaldo e Dona Cecília eram amigos dos meus avós. Sempre bem vindos à casa humilde na entrada da Vila, mesmo que duvidássemos da carne e do osso de que eram feitos ou do fantástico e hiperbólico discurso daquele homem incomum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que saíam, quando a tarde já varava a noite alucinada de Itambi, permaneciam alguns dos nossos pela sala, rindo aqui, comentando ali, ponderando uma a uma todas aquelas improbabilidades. Estava decidido: Seu Arnaldo era personagem de um livro. Mas as crianças (tão crédulas!) ficavam marcadas para sempre sob o misturado impacto do medo e da fantasia que tudo aquilo inspirava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite dessas, ele contou a história, densa e teatral como sempre, de uma caçada com seu desfecho alucinante. Bem caminhava por aqueles matos quando o choro estridente, embora remoto, de uma criança fez com que se apartasse dos companheiros. Perdeu-se na busca do choro, antevendo a criança que, em desespero, chorava. Um lindo bebê apareceu ali, estranhamente limpo, metido entre as raízes da grande árvore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente abaixou-se e pegou a pobre criancinha, frágil e aflita, talvez faminta. Foi quando o bebê se transformou numa criatura diabólica que fedia e urrava, expelindo fogo pelos olhos! Afastou-a de si benzendo-se com o sinal da cruz. Numa grande explosão, a coisa desfez-se em fumaça, inundando tudo com o cheiro sufocante do enxofre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio na sala. Ninguém respirava, sequer. Cada qual decidia intimamente para si o maravilhoso dilema que dispunha em dois o crer e o desdenhar: o crer para acrescentar ao que já se sabia da vida e o desdenhar para sempre esquecer. Não se falou mais nada, até que eles fossem embora naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito pouco se falou também depois. Não tinha consolidado ainda a língua que exprimia sentimentos tão confusos. Meus tios procuravam rapidamente seus aposentos, cobriam-se dos pés à cabeça e dormiam um sono denso, cheio de suspeitas. Os primos andavam uns empencados nos outros, siameses de olhos esbugalhados, procurando conforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tratei logo de procurar o meio da cama entre papai e mamãe. Aprendia em lições esse segredo maior de todos os órfãos: pode haver no mundo melhor lugar para esconder-se de nossos medos? A casa foi ficando silenciosa. A voz do Seu Arnaldo resiste ainda nas paredes ocas de barro batido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Verdade ou mentira? Não sei dizer, mas daquela noite em diante, algumas luzes nunca mais se apagaram na nossa casa e na Vila, dentro de mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-1661696505945564685?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/1661696505945564685/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=1661696505945564685&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/1661696505945564685'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/1661696505945564685'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2008/08/as-pernas-da-mentira.html' title='AS PERNAS DA MENTIRA'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-1341636241125757336</id><published>2008-01-31T16:56:00.001-08:00</published><updated>2008-01-31T16:59:17.689-08:00</updated><title type='text'>O VESTIDINHO DE CROCHÊ</title><content type='html'>A água escorria entre os grãos do feijão, iluminando um a um e logo vazando lépida pelos furos da peneira, enquanto eu pensava. Pensava em tanta coisa quanto era possível minha memória intermitente acender e apagar, vagalumeando na tardezinha nublada. Eu afundava os dedos no feijão, desavisada e esquecida, como quem acaricia uma cabeleira... Ah, e como pensava!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que me veio, entre um grão e outro que se perdia em sentido horário no abismo da pia, uma lembrança que parecia perdida entre tantas, no abismo anti-horário da memória: meu vestidinho de crochê. Eu tinha lá meus nove anos. Corria há algum tempo o murmúrio de que minha madrinha de batismo, uma figura de escassa presença em minha vida, tecia no mais belo ponto de crochê um vestidinho para mim. Ouvia e fingia não ouvir, já fascinada a espera do dia em que teria nas mãos o vestidinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormia pensando na cor, acordava com sua textura, seu cheiro na memória dos sonhos, a trama dos pontos, o emaranhado da linha. Que figura ela desenhava? Uma flor, um peixe, um sol, a roda de uma mandala? Dormia com figuras possíveis para um desenho que em sonho já cobria meu corpinho, me fazendo princesa até uma meia-noite qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de longa e calada agonia, voltaram os murmúrios sobre a chegada do vestido. De novo meu coração se agitava. Rebate falso: a fada-madrinha ainda tecia infinitamente a trama, mulher de Atenas, como que numa demorada e inútil espera por seus guerreiros.  Soube depois que ela era solteirona, expressão irreversível e cruel para mulheres que não encontraram seus companheiros a tempo, mas estabelecido por quem? Ela vivia a tecer, caprichosa e solitária aranha, o meu vestido-teia, quem sabe para que eu não tivesse a mesma sorte dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou então o grande dia! Minha madrinha avisou que viria nos visitar, trazendo na bagagem o encantado vestidinho. Extremamente cerimoniosa, tímida, de pouquíssimos carinhos, uma economia enorme de afeto, eu entendia mesmo sem saber bem porque o motivo daquela solteirice. Não importa, eu queria mesmo era ver o meu vestido. Confesso cruelmente que quando a vi – a aparição dela era tão rara! – senti uma certa desolação. A figura pálida, esquálida, desengonçada e triste, nunca poderia tecer o vestido que era um sonho, vigoroso, mágico, arrasador! Não, não poderia. E não pôde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma pequena caixa de camisa masculina, provavelmente de um irmão ou do pai, improvisou o embrulho arrumadinho para a entrega solene. Enfim, meu vestido de crochê. Abri com mínimas expectativas e me deparei primeiro com a cor: azul clarinho. Não que eu não gostasse de azul, mas aquele parecia ter dormido meses a fio debaixo de chuva fina, e dormia ainda. A trama dos pontos também não agradou, parecia comum feito escamas de um peixe barato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O modelo nada tinha de especial, lembrava camisola, uma pala e o resto escorrido, com o compromisso original de cobrir o corpo, apenas. Fiz cara de que gostei, será que soube fazer? Então me pediram para vestir. Fui ao quarto de minha mãe e ainda tentei, com esforço infinito, manter com aquilo um pouco de cumplicidade. Afaguei, cheirei, alisei, encostei o rosto suavemente. Nada. Era como o braço de um estranho que roça o seu, no banco do ônibus. Só incômodo e estranheza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive pena dela. Como voltar à sala tão vestida de dúvidas? Como as pessoas não veriam o desapontamento em meu olhar? Mas fui, solicitaram e fui. Atravessei a sala em silêncio e parei diante dela. Estava completamente infeliz dentro daquela coisa que me transformava em um canudo magrelo e insosso. E ainda pior! Denunciava meus peitinhos brotando irrequietos e incômodos, anunciando o fim da meninice. Aquilo era o fim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Constrangida, decepcionada, morrendo de pena, fingi que gostava, tudo para não ferir aquela que havia tecido as horas de sua vida em um vestido que eu nunca mais vestiria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-1341636241125757336?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/1341636241125757336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=1341636241125757336&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/1341636241125757336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/1341636241125757336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2008/01/o-vestidinho-de-croch_31.html' title='O VESTIDINHO DE CROCHÊ'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-6975524700729355439</id><published>2007-09-21T05:50:00.000-07:00</published><updated>2007-09-21T05:52:59.663-07:00</updated><title type='text'>AMA E LANÇA CHAMAS</title><content type='html'>Claro que o mistério que envolve nosso planeta é desafiador. Claro que ser talvez o único planeta, de uma em milhões de galáxias que se fez generosamente habitar, é coisa no mínimo surpreendente. Mas toda essa espantosa conexão de mistérios e desafios fica um pouco menor quando nos aproximamos desses seres, seus habitantes. Esses que germinaram por aqui, frutos de teorias que imaginam big bangs, de crenças criacionistas, enfim, do improvável que a todo custo queremos crer ou provar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criaturas que tornam possível, o impossível. Criaturas que crêem mesmo sem que nunca tenham visto a face de Deus. Criaturas que sonham sem saber o que espera por elas na próxima esquina. Criaturas que amam e odeiam com força igual, tanto faz, na criação como na destruição. São elas, indiscutivelmente, o que há de mais maravilhoso em todo esse abismo! Que, a essa altura, já deve intrigar meu improvável leitor: mas onde será que ela quer chegar? Acredite, ao meu irmão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como convém a uma contadora de histórias, comecemos pelo princípio. Soube que tinha um irmão quando comecei a me entender por gente, mas nunca o havia visto. Falavam dele na família. Seus traços eu desenhava naquela mente nebulosa e inquieta de criança. Sua personalidade eu descobria aos pedaços montando um quebra-cabeça com peças perdidas debaixo de um armário. E montava e remontava, curiosamente esquecia para recomeçar. Mas sem desassossego, como se previsse que o dia do encontro chegaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E chegou mesmo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos uma tia comum, dessas que abraçam a família e cuidam para que tudo conspire favoravelmente, na mais perfeita paz. Um anjo! Entrei pela porta da sala que faceava na calçada, sempre aberta, como costumava ser no interior. Havia um rapaz sentado no sofá. Perguntei meio tímida se Titia estava. Não estava. Ela havia saído. Fiquei por ali com um pressentimento. Fui ver os livros na estante: enciclopédias, dicionários, coleções coloridas compradas de mascates, com suas vistosas capas duras... Era absolutamente oportuno redescobri-las uma a uma, naquele instante!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí ele quebrou o silêncio. Disse sem querer exatamente dizer o que dizia: – Você é sobrinha de tia Zelina? Entendi tudo, eu conhecia todos os meus outros primos; se quem chamava Tia Zelina de tia não era primo... Perguntei: – Você é o meu irmão? Pausa para os comerciais, a seguir, cenas do próximo capítulo... Mas que nada! Era vida real! E não houve tempo sequer para retocar a maquiagem. Olhei aqueles olhos negros e brilhantes e não contive o abraço. O destino vencera, mais uma vez, em sua ardilosa preparação do acaso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lugares mais que comuns: parecia que o mundo parava por uns instantes; que apenas nós dois, confrontados e atônitos, vivíamos a emoção de achar um irmão perdido no labirinto chamado vida. Não me lembro exatamente do que falamos, sei somente que as palavras, na vontade de atualizar os fatos, brotavam como bolhas de uma fervura antiga que não secava! Depois daquele dia nos afastamos de novo. Por que será? Penso que porque agora sei, e saberei para sempre, que ele existe mesmo e que está logo ali...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algum tempo nos reencontramos de novo, por obra desses milagres virtuais que fazem os sites de relacionamentos. E marcamos de nos ver no dia seguinte ao meu aniversário, ele me levaria um presente – Um pedaço de mim, irmã –, como dizia. Dessa vez eu abri a porta sabendo que por ali entraria o meu irmão, um sujeito de alma pura, um cara de coração doce, uma eterna criança. Conversamos por horas. Observei-o virginianamente, ouvi suas histórias e atualizei as minhas, me alegrava seu sorriso amplo, lacrimejei por vezes sem que ele percebesse, senti a emoção de suas palavras e o admirei explicitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admirei secretamente, também, sua força e coragem: como nosso pai, ele parecia não temer os desvãos do mundo. Recebi, comovida, um cd especialmente gravado para mim, cuja capa fora composta com gosto e afeto por sua filha, minha sobrinha. Ouço agora essa deliciosa coletânea de rock progressivo. Meu irmão ainda é o mesmo que encontrei na sala da casa de Titia, o mesmo ser humano surpreendente, dizendo com aqueles olhos fulgurantes, enquanto fita uma nesga do céu de Niterói pela arinha do apartamento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe, irmã, eu não consegui quase nada nessa vida! Mas Deus me deu um dom maravilhoso, que me faz uma pessoa muito feliz: eu sei fazer amigos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só me restava mesmo cantarolar, com Paulinho da Viola e Sergio Natureza, ama e lança chamas, assobia quando bebe, canta quando espanta mal olhado, azar e febre...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-6975524700729355439?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/6975524700729355439/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=6975524700729355439&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/6975524700729355439'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/6975524700729355439'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2007/09/ama-e-lana-chamas.html' title='AMA E LANÇA CHAMAS'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-451860612456986218</id><published>2007-04-20T07:20:00.000-07:00</published><updated>2007-04-21T08:08:53.766-07:00</updated><title type='text'>TENHO PENA DE QUEM NÃO CHORA</title><content type='html'>Pai desculpe, mas estou começando a fazer algo que você não faria ou que não gostava de fazer, isto é, lembrar! Que fique bem claro, não por falta de assunto ou de ter concretamente no que pensar, até porque sua vida vária foi vivida intensamente! Não faria, estou certa, mais por uma decisão polêmica, embora sábia: lembrar dói... Está doendo agora, pai, e eu mal tomei essa minha insensata decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa manhã muito, muito quente de fevereiro fui acordada com o trim do telefone. E todo o restante do dia que corria me fez entender que algumas dores nos levam para dentro de uma grande tela de cinema. A vida passando em slowmotion. Os sons são surdos e viajantes, as palavras escorrem com eco de uma boca seca e dormente. Você pai, haveria de morrer naquela tarde muito, muito quente de fevereiro, véspera de carnaval.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paralisada diante de um prato de comida num self-service da vida (quem diria que da morte...), o celular golpeava meus ouvidos. Atendi e aquela voz fingindo preocupação perguntou feito um cometa, uma tempestade anunciada, um pierrot dobrando subitamente uma esquina: – A senhora está no trânsito? Não, não estava no trânsito, mas entendi de imediato o que havia acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma vez a tela de cinema estava presente, tudo tão rápido! Uma vertigem lenta, veloz e lenta de novo; uma profusão de cores e luzes e sons, na verdade não sei se lenta ou veloz, porque subitamente o tempo cessou de existir. Faltava ar na sala-de-espera do mundo! Eram tantas lembranças perfurando meu coração, como agulhas aquecidas no fogo de uma saudade que ainda nem começou. Lembro, aliás, de uma bem curiosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembra pai, sua mania de me tratar como menino: “Meu filho”, “Meu garoto”. Logo eu, tão frágil e tão imaginariamente companheiro de viagem, tão fiel na paixão por automóveis, tão mecânica e incondicionalmente filho, quase me sentia irmão de mim mesma, irmã de mim... O curioso é que eu aceitava tão bem o tratamento, entendia intuitivamente aqueles sinais, o que eles representavam. Enfim, eu, um equívoco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, filha de seu segundo casamento, entre e depois do filho e da filha do primeiro, ciumenta de ambos. Talvez fosse a comunhão daqueles dois irmãos ainda desconhecidos. Eu magrelinha, eu que precisava ser forte “como as árvores mais altas”, eu que para tudo isso precisava ser homem. Meus grandes olhos de jabuticabas maduras não podiam despertar a cobiça indecente de pássaros vagabundos. Que fossem então olhos de menino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos felizes e cúmplices, pai, sem que ninguém entendesse aquela estranheza de coisa. Até o trim do telefone naquela manhã de um dia quente, muito quente de fevereiro, em pleno carnaval. Até aquela hora triste em que não se entende nada, em que tudo se pergunta, em que se compreende que as respostas só virão depois, muito tempo depois, quando nada mais nos cabe fazer senão chorar e chorar e chorar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho pena de quem chora, cantava Gil, mas eu não: tenho pena de quem não chora! Foi o que fiz, chorar. Chorei como só uma mulher sabe fazer, talvez como todo homem devesse aprender. Chorei eu, menino-menina de meu pai, que aprendi e que esqueço de vez em quando que lembrar dói, dói muito, dói demais... Dói agora, pai, enquanto eu permaneço fiel a essa minha insensata e funda decisão de lembrar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-451860612456986218?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/451860612456986218/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=451860612456986218&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/451860612456986218'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/451860612456986218'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2007/04/tenho-pena-de-quem-no-chora.html' title='TENHO PENA DE QUEM NÃO CHORA'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-116480478847090787</id><published>2006-11-29T04:49:00.000-08:00</published><updated>2006-11-29T04:53:08.480-08:00</updated><title type='text'>AS PESSOAS E AS COISAS (ou aqueles objetos que perduram depois de nós)</title><content type='html'>Quantas e quantas vezes &lt;em&gt;aquilo&lt;/em&gt; chegou à mesa de nossa casa! Vinha com arroz soltinho e fumegante, que mamãe acomodava levemente, a boca cheia d’água, numa folha de alface, devorando ávida e estalando a língua entre os dentes branquinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes vinha com vagem e dois ovos, traquinagens de meu pai, &lt;em&gt;gourmet&lt;/em&gt; que misturava tudo com &lt;em&gt;petit pois&lt;/em&gt; – sabe, aquela bolinha verdinha que só muito mais tarde passei a chamar de ervilha. Não sei por que ancestralidades anteriores à raiz nordestina, papai gostava desse trato à bola, afrancesava como convinha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, talvez já inquieto, o caro leitor se pergunta: o que é isto, ou melhor, o que é &lt;em&gt;aquilo&lt;/em&gt;? Então eu respondo: trata-se de uma travessa oval de duralex branco, com raminhos de trigo azul pelas laterais, herança humilde do pequeno espólio de minha mãe querida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz muitos anos, mas muitos anos mesmo, que essa travessa participa da intimidade da casa. Assim, como uma coisa entre coisas – a coisa-travessa dentro do rol de coisas que chamamos vida –, que é como percebemos de dentro nossas próprias emoções!  Hoje me pergunto por que certos objetos (e quem não os têm!?) se fazem essas presenças tão perpétuas em nossas vidas? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico pensando nos egípcios, suas coisas encobertas em milênios de areia e pedra e pó. A conservação da matéria onde não mais circula e ferve o sangue. O jarrinho de barro, a pulseira de ouro, o ouro dos ritos e o ouro de tolo, a insistente tolice de perdurar a qualquer custo... Por quê? Escava. Descobre. Resgata. Mas nunca que ressuscita!  Que fizeram ali, por longos e longos anos, aqueles objetos quase intactos, carcaças de sentido, como que numa busca desolada de alma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Errantes em desertos vários, submersos em tempestades de areia, ressuscitados em sonhos breves, como oásis de significado na miragem da vida: as coisas lá estão, à espera de novas pessoas... Assim se comporta a travessa de louça – perfeitamente quebrável! – de mamãe! E, no entanto, indestrutível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram-se minha mãe, meu pai e boa parte da família... A travessa teimosa subsiste. Defendendo-se de mãos apressadas e faxineiras afoitas, das minhas próprias mãos descuidadas e aflitas, depois de algumas taças de vinho, protegendo-se do encanto que chama do não-existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui está, agora, na mesa da minha casa, dando esse mesmo sabor fumegante e antigo a um prato de camarão...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-116480478847090787?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/116480478847090787/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=116480478847090787&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116480478847090787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116480478847090787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/11/as-pessoas-e-as-coisas-ou-aqueles.html' title='AS PESSOAS E AS COISAS (ou aqueles objetos que perduram depois de nós)'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-116394303463217631</id><published>2006-11-19T05:25:00.000-08:00</published><updated>2006-11-19T05:39:29.353-08:00</updated><title type='text'>FELIZ CUMPLEAÑOS, ISABELITA</title><content type='html'>Nossas vidas a princípio não tinham que estar cruzadas: ela morando, como sempre, lá nas lonjuras de Itaperuna, eu vivendo na tribo, em Itambi, e aprendendo a desbravar Niterói. Mas foi aí que a mão do Destino, essa mão misteriosa na ponta de um braço longo e imprevisível, nos aproximou e nos uniu! Vai saber por quê!?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrei na vida dela de uma forma um tanto desgovernada, os puristas diriam, pela porta dos fundos! Quebrei o ritmo e a vidraça. Desfiz convenções, armários, consertos e arrumações. Ela quase me odiou (se pudesse odiar) e estabelecemos um embate. O casamento da Laninha com o Zé Roberto estava marcado para março e seria lá: combinamos o duelo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leitora e leitor desavisados e amigos, falo de Isabel. Isso, Isabel com &lt;em&gt;“s”&lt;/em&gt;, minha... bem, que palavra coloco aqui? Depois que as piadas e as histórias, verdadeiras ou imaginárias, inventaram um tom pejorativo para a palavra &lt;em&gt;“sogra”&lt;/em&gt;, ela não cabe mais neste lugar. Ponhamos então Isabel, com &lt;em&gt;“s”&lt;/em&gt; de sinceridade, minha amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde eternamente caliente de março, a Igrejinha de São Francisco, em Niterói aguardava os convidados. Enquanto me vestia pensava com meus botões (e brincos): que armas usaria? Busquei a ajuda do meu pai, Edgar sempre presente e disposto a ajudar, principalmente diante da recente perda de minha mãe. E partimos para o grande encontro, pouco depois do nascer do sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vista da praia, do alto do morrinho de São Francisco, era lindíssima! A igreja florida aguardava os convidados – convidados para o que, mesmo? – e meu coração deflagrava uma enorme dúvida: quem venceria o duelo? Aproximei-me, entre turrona e tímida, observei seu rosto, igualmente curioso e tenso, fitei seus olhos e então não tive dúvida: tudo sairia bem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz pose, mostrei as armas (e os brincos), cantei alto no terreiro da igrejinha, enfim... Mas alguma coisa dentro de mim, muito silenciosamente, indicava que eu não bati em porta errada. Alguma coisa me dizia palavras de admiração e ternura. Ela sentiu a mesma coisa, tenho certeza! Acariciamos as armas (e os brincos) sem sacá-los. Ficamos só no suspense. &lt;em&gt;The End&lt;/em&gt;: as letrinhas do final do filme começaram a correr na tela da imaginação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos se passaram...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, tomei liberdade para chamá-la Isabelita, essa mãezona que transita entre Lorca e Almodóvar. Uma mulher verdadeira, que tem nas veias o vertiginoso fluxo do sangue espanhol, encarnando &lt;em&gt;la madre&lt;/em&gt; hispânica ou, mais proximamente, &lt;em&gt;las Locas de Mayo&lt;/em&gt; até às últimas conseqüências... Intensa e presente, atenta a cada movimento em falso dos seus. Isabel é assim: agregadora e cuidadosa, sensitiva, zelosa como convém à boa mãe espanhola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, Isabel Alvarez (nome de &lt;em&gt;la sangre&lt;/em&gt; que não carrega, mas que lhe cairia muito bem) completa 74 anos. Vinte e tantos deles convivemos muito de perto, depois daquele primeiro duelo que não aconteceu! O que eu diria a ela hoje? Que valeu a pena, Isabelita! Pelas infinitas conversas, eu achando que sabia mais e o tempo me fazendo ver o contrário. Pelas muitas lágrimas que você viu escorrer no meu rosto sem dizer palavra, sentindo comigo, como eu bem gosto! Pelo silêncio, nosso jeito natural e sem frescuras de demonstrar cumplicidade e afeto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está próximo o dia do retorno ao nosso duelo que não houve, Isabelita, adiado desde o começo dos anos 80. Carolina, sua neta mais velha, vai se casar naquela mesma igrejinha! De novo os convidados e os dedos polindo as armas (e os brincos): quem sacará primeiro? Será ainda preciso? Afinal o tempo, senhor de todas as verdades, já nos mostrou com quantos paus se faz uma canoa e com ela, que tal uma voltinha pelas águas calmas da enseada de Charitas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Remando, remando e olhando a rosa dos ventos! Conferindo que tudo é propício para a prole mergulhar... &lt;em&gt;Feliz cumpleaños, Isabelita! Tienes razón. Tu hijo vale mucho. Como los míos que el tuyo me ha dado.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-116394303463217631?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/116394303463217631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=116394303463217631&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116394303463217631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116394303463217631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/11/feliz-cumpleaos-isabelita.html' title='FELIZ CUMPLEAÑOS, ISABELITA'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-116359867829284354</id><published>2006-11-15T05:49:00.000-08:00</published><updated>2006-11-15T05:51:18.300-08:00</updated><title type='text'>A MISTERIOSA HISTÓRIA DE SER MÃE</title><content type='html'>Noite passada eu sonhei com meus filhos. Eles eram ainda bem pequenos, o mais novo quase um bebê, o mais velho ali pelos seus cinco aninhos! Acordei sem eles dormindo ao meu lado, aliás, como vinha acontecendo nas últimas noites, por conta de um feriado prolongado. Fiquei o dia todo assim meio esquisita, sonâmbula, procurando meu sonho perdido pelos cantos da casa, debaixo do travesseiro, nos desvãos de minha pobre alma amanhecida e carente de mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei pela cidade dirigindo o carro, fiz um monte de coisas, conversei ao telefone, corri velozmente no ritmo de uma esteira de academia, enviei e recebi e-mails, conferi diversas vezes meu orkut e nada daquele vazio passar... Foi então que encontrei a ponta de um cordão suspenso, ou melhor, de dois cordões lembrando uma mesma história, a misteriosa história de ser mãe. Como um filme doce e suave passando ao revés diante dos meus olhos comovidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava eu ali, lembrando que um dia, cada qual a seu tempo, fomos um só. Que estivemos tão indissoluvelmente atados um ao outro que de nada adiantava agora trezentos quilômetros de lonjura, obrigações universitárias inadiáveis, novos compromissos pessoais, a vida independente como uma fera rugindo lá fora! Nada, nunca, nem a mais afiada das tesouras haveria de nos separar daqueles tempos de água e placenta, de dor e gemido, de choro, choro e riso, riso, riso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei do exato momento em que cada um veio à luz. Pensei como é tudo tão perfeito nesse velho plano de Deus!  Parir, lançar os filhos ao mundo numa vertiginosa busca de cumprir destinos, de fabricar destinos. Mantê-los por perto mesmo que longe; aceitá-los longe querendo tê-los por perto, tão perto, quase dentro... Amá-los infinitamente mais que a mim mesma e, no entanto, deixar que a vida por si se incumba de traçar-lhes os roteiros de viagem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensei que toda criança que nasce, lançando ao vento seu destino, reinventa um coração de mãe, vulnerável e inquieto. Percorre de novo o mesmo caminho místico do coração de mãe, sobressaltado e arfante. Plantado no presente, um coração de mãe sonhando com futuros incertos, resgatando nostálgicos passados, cuidando para que o dia passe em perfeição e harmonia. Um coração sofredor e preciso, antecipando o próximo minuto, adivinhando o segundo seguinte no tempo dos filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser que esse não seja todo o sentido da vida: o mundo é um mistério, afinal, e nele há muitas armadilhas... Mas só por ser mãe já valeu a pena existir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-116359867829284354?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/116359867829284354/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=116359867829284354&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116359867829284354'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116359867829284354'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/11/misteriosa-histria-de-ser-me.html' title='A MISTERIOSA HISTÓRIA DE SER MÃE'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-116096769588125697</id><published>2006-10-15T19:57:00.000-07:00</published><updated>2006-10-15T20:05:28.833-07:00</updated><title type='text'>PERDOA POR ME AGREDIRES</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Toda mulher gosta de apanhar.&lt;br /&gt;O homem é que não gosta de bater.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(Nelson Rodrigues)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Geninho e sua mulher ao mesmo tempo comprovam e dementem a obra de Nelson Rodrigues! Minha mãe e eu sabemos o quanto isso pode ser verdade: ela apanhava e de fato gostava; ele batia porque também gostava. E os dois tocavam a vida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na madrugada sonolenta estalavam tabefes, ecoavam palavrões e ofensas. Ladeira acima, lá iam cambaleantes, embriagados e trôpegos, esfolando-se nos pedregulhos, focinhando nas moitas de capim à beira do caminho. &lt;em&gt;“Levanta, cadela, pra apanhá mais”&lt;/em&gt;, ordenava ele. Ela obedecia como quem não tem mesmo outra coisa pra fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase toda tarde a cena se repetia: Geninho, a mulher e um cachorro magro desciam a ladeira em direção à vila. Desciam ainda sóbrios e um tanto envergonhados, como se antevissem o final daquela história. Passavam rápido e em silêncio diante do portão de nossa casa. No botequim tomavam todas, inclusive as do Santo. Tinha início, então, aquela via crucis pagã rumo ao barraco, ambos compartilhando o peso da mesma cruz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachorro acompanhava de perto, maldizendo aquela vida de cão em uma família tão pouco civilizada. Nada sobrava para ele, que não bebia ainda... Porque do jeito que as coisas iam, a qualquer hora acabava contrariando sua própria natureza de cão e tomava umas e outras também. Só pra suportar o tranco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coitada apanhava, mas como apanhava aquela criatura! Às vezes reagia e partia pra cima dele, mas Deus fez as mulheres tão frágeis que umas unhadas e mordidas apenas temperavam a violência das bofetadas, dos socos e pontapés. Mas, ah o amor! Quem há de entender sua estranha lógica, sua alquimia improvável deslocando sentidos, transformando mal-cheiro em perfume, plantando jardins em baldios, traduzindo, às vezes, xingamento em poesia ou tapas em beijos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perplexas, minha mãe – zelosa funcionária do pequeno posto dos correios da Vila – e eu, sua assistente atenta, sentávamos para não cair. Provavelmente Geninho ainda dormia quando ela aparecia, na manhã do dia seguinte. O rosto desfigurado pelas porradas e pela cachaça, cabisbaixa, envergonhada, mas só um pouco: afinal, essa tal de vergonha, que toda mulher tem, a dela o estúpido cachorro magro já tinha lambido faz tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar vagava no nada. As mãos tremiam. Um hálito enferrujado de muitos porres acumulados lançava no ar uma voz arrastada, tentando explicar, sem que ninguém pedisse explicações. &lt;em&gt;“Geninho me bate, tô toda roxa...”&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos lacrimejavam. Inútil aconselhar que largasse o marido: &lt;em&gt;“Posso não, Dona Cléa, eu gosto dele!”&lt;/em&gt; Eu era menina demais pra entender aquelas peripécias do amor. Na volta pra casa, toda romântica, ela planejava enfeitar o barraco, colhendo por onde ia alguns galhinhos de maria-sem-vergonha...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-116096769588125697?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/116096769588125697/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=116096769588125697&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116096769588125697'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/116096769588125697'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/10/perdoa-por-me-agredires.html' title='PERDOA POR ME AGREDIRES'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115952832017158602</id><published>2006-09-29T04:10:00.000-07:00</published><updated>2006-09-29T04:15:45.753-07:00</updated><title type='text'>NUM VALLE SEM CLÉA</title><content type='html'>Certas mulheres foram e ainda são imprescindíveis na minha vida: com elas aprendi coisas demais... Assim, como se elas fizessem parte de um jogo de montar e desmontar, cada uma com seu encaixe e com sua função. Me ensinam, me guiam, me fortalecem, me mostram caminhos. Me entregam doces para que eu leve à casa da vovozinha e uma baita espingarda debaixo da capinha vermelha, pra detonar o lobo mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sábias, sem que ao menos soubessem que eram. Guerreiras, mais por instinto e senso de sobrevivência que por decisão. Gosto de falar delas. Me dá a sensação de que estou falando um pouco de mim. Começo por minha mãe: ontem fez alguns muitos anos que a perdi. Curiosa essa proximidade do começo com o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que lindeza de pessoa ela era! O amor por seu semelhante, a fragilidade diante dos dilemas existenciais, carregando sempre a dor do mundo no seu coração. Hoje – quando sou forte e quando sou fraca – vejo que me pareço um tanto com ela. Mas os filhos, bem, os filhos se compõem de partes dos pais, e uma parte do que sou traz a marca do meu pai. Ele enxugava em mim tudo o que em mim transbordava dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O envolvimento nos dilemas alheios, por exemplo, sem que muitas vezes pudesse fazer qualquer coisa. Se à sua porta batesse um pedinte implorando ajuda, lhe daria comida, roupas e... conversa! Com certeza, ficaria por ali um bom tempo querendo saber, querendo ouvir, querendo entender. Que decisão íntima conduziria alguém a essa condição? Mendigos têm família, amigos, amores? Acaso seria possível, num lapso de sorte, coragem ou decisão, deixar de sê-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe era assim: intensa, doida e apaixonada; terna, irmã e, sobretudo, filha do pai. Incondicionalmente, filha do pai! Pareciam feitos, ambos, do mesmo barro de Itambi. Nunca vi um amor tão grande, uma dedicação tão completa, uma cumplicidade tão irrestrita como entre ela e meu avô. Nunca vi uma dor como aquela, gritando pra dentro, quando ele morreu. Pensei que ela não suportaria e tive muito medo de perdê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trágica, exagerada, assim ela queria amar e ser amada. Mas não se deu tempo! Preferiu encurtar o caminho... Um dia pegou um atalho por entre a lavoura de abacaxi, levando a marmita pro velho Cid Valle que a esperava, embecado nos seus costumeiros ternos de linho branco. Ensaiando passos, rodopiando por sobre os canteiros, talvez esperasse a filha amada para o último bolero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, dilacerada, eu gritava: – Mãe, cadê você? Que mania é essa de sumir de mim... Logo agora, que não sei o que faço com a tristeza desses meus vinte anos blue?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115952832017158602?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115952832017158602/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115952832017158602&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115952832017158602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115952832017158602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/09/num-valle-sem-cla.html' title='NUM VALLE SEM CLÉA'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115914505160009377</id><published>2006-09-24T17:34:00.000-07:00</published><updated>2006-09-24T17:46:46.743-07:00</updated><title type='text'>MAGAZINE</title><content type='html'>Nosso amor derramado pela cidade&lt;br /&gt;sob o neon&lt;br /&gt;hemorragia belíssima&lt;br /&gt;pupila vasada - pura luz e dor -&lt;br /&gt;Nosso amor exposto nas prateleiras&lt;br /&gt;do magazine&lt;br /&gt;Amor caríssimo&lt;br /&gt;inflacionado&lt;br /&gt;disputa com cristais, toalhas aveludadas&lt;br /&gt;tv a cores, frutas de cera&lt;br /&gt;a melhor oferta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o nosso amor cansado se entrega&lt;br /&gt;à gentil senhorita de calça stretch e colant&lt;br /&gt;que quer amor pra ficar menos infeliz&lt;br /&gt;ou ao elegante cavalheiro de terno marron&lt;br /&gt;que o quer nem sabe bem por quê&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa força autônoma e inefável: nosso amor&lt;br /&gt;anda assustando&lt;br /&gt;tem-se bastado&lt;br /&gt;E nós, Incompetentes Administradores de Amor S/A&lt;br /&gt;ganhamos uma inquietude perigosa&lt;br /&gt;uma insegurança tola e cretina&lt;br /&gt;e&lt;br /&gt;quase ridículos&lt;br /&gt;brigamos numa esquina&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115914505160009377?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115914505160009377/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115914505160009377&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115914505160009377'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115914505160009377'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/09/magazine.html' title='MAGAZINE'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115828857516006661</id><published>2006-09-14T19:35:00.000-07:00</published><updated>2006-09-14T19:57:28.400-07:00</updated><title type='text'>A BABÁ DE TÚLIO</title><content type='html'>Certamente GG Márquez nunca morou na vilazinha estranha e esquecida onde nasci e me criei, lá perto do fim do mundo. Mas quem conhece a Macondo do escritor poderá sentir-se perfeitamente em casa em Itambí, lugar de acontecimentos insólitos e de situações divertidas e imperfeitas, como a própria natureza humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio morar em nossa rua, certo dia, uma senhora baiana com seu filho pequeno, o cachorro e uma bagagem imensa. Foram se acomodando aos poucos diante daqueles olhares maldisfarçadamente curiosos da vizinhança afoita por novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamava-se Dona Elza, lembro bem. Era atarracada, cabelo meio zangado, expressão forte e gênio não menos. Cuidava da vida dela enquanto a Vila inteira observava de longe. Estranhos eram até bem vindos, mas tinham seus segredos espreitados e a eles acresciam-se mistérios insondáveis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo ia muito bem até que Dona Elza resolveu que seu filhinho precisava de uma babá. Afinal, o trabalho não lhe dava folga e o menino ainda pequeno ficava mesmo à deriva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi aí que, sem dar explicações à Vila, ela contratou para os serviços de babá um homem. Na verdade, era um mulato forte, temperamental, muito bravo e... gay. A Vila inteira não entendeu o que julgava ser uma insanidade. Dona Elza só podia ter enlouquecido! Correu mesmo à boca pequena a idéia de interditá-la. (Quem teria peito para isso?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez vista grossa, fechou os olhos e os ouvidos: afinal, estava satisfeita com os cuidados precisos e as atitudes firmes que o babá Fratonildo (esse era o nome dele) dedicava ao seu pequeno Túlio. A Vila incomodada remexia, borbulhava, revirava como um vulcão prestes a rugir... Mas o que se há de fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas manhãzinhas, era obrigada a conviver com Fratonildo levando Túlio para o passeio na única pracinha do lugar. Justiça seja feita, como ele cuidava bem do menino! As fofoqueiras e os aposentados, os bêbados e os desvalidos, crianças, cachorros, gatos e vadios que freqüentavam a pracinha foram aos poucos se acostumando com aquela idéia maluca de Dona Elza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que um dia, misturado ao drama, puderam tirar da situação um pouco daquela escassa alegria que o lugar também oferecia. Era um dia chuvoso e frio. Fratonildo, vendo que o menino patinava, prestes a mergulhar na poça d’água, gritou com aquela voz de contralto, bastante afetada, borboletando no ar os braços compridos: – Sai da lama, Túlio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Vila inteira riu! Riu muito e fez disso um bordão: dali em diante, em toda situação de perigo ou na iminência de pequenas e grandes tragédias inesperadas, o povo gritava numa única voz: – Sai da lama, Túlio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde então, ninguém mais se lembrou que Fratonildo era uma babá e que era gay. Afinal, fora acolhido como um deles! Uma bela vitória daquela baiana alienígena, com nome de leoa, chamada Elza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115828857516006661?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115828857516006661/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115828857516006661&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115828857516006661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115828857516006661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/09/bab-de-tlio.html' title='A BABÁ DE TÚLIO'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115759706719098086</id><published>2006-09-06T19:43:00.000-07:00</published><updated>2006-09-06T19:44:27.206-07:00</updated><title type='text'>DONA CHI-CA-CÁ...</title><content type='html'>Dona Chica: pronuncio o nome dela e sinto a fumaça espessa do seu cigarro me invadindo a mente. Volto subitamente no tempo e redescubro os cantos sombrios e úmidos da casinha, cheia de gatos dissimulados e plantas estranhas – feito romã! As romãs me fascinavam, mas dos gatos eu tinha implicância e medo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, eu adorava aquela casa, menos pelo requinte e beleza (que eram quase nenhuns) e mais pelo mistério e encantamento que me despertava. Me deixa contar bem detalhadamente, como é do meu jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Chica era costureira e das boas! Esquálida, temperamental, sistemática! Brava e tinhosa com quase todo mundo, mas comigo era um doce de Chica. Eu desenhava meus vestidinhos e dizia a ela como eu queria: ela me olhava, olhava e, por fim, retrucava – “Menina danada, não é que isso vai ficar bonito mesmo!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fazia tudo mi-nu-ci-o-sa-men-te... como eu queria. Ficava uma formosura e ela lambia a cria, baforejando palavras misturadas em orgulho e nicotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Chica era casada com Seu Nilo, um marido escorregadio e preguiçoso. Aquilo era uma geringonça na vida dela. Mais uma geringonça entre coisas naquele imenso quintal. Só servia – e quando muito! – pra fazer café e servir na canequinha verde de ágata, que ela bebia enquanto costurava e fumava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes eu fui até lá com minha mãe. As duas eram muito amigas. Enquanto falavam, eu brincava com uma miniatura de caixa com garrafinhas de coca-cola. Era um brinquedo maravilhoso! Acho que nunca tive nada tão lindo! Eu tirava e botava aquelas garrafinhas na caixa mais de mil vezes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não entendia como ela, logo ela que não tinha criança em casa, podia ter um brinquedo tão fascinante! Aliás, tinha uma criança sim, mas era já um rapazola que parecia feito de papelão na chuva: apagado, umedecido e meio triste. Suponho que puxara o pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São muitas as lembranças daquela casa, daquela família e, ainda mais, daquela senhora sempre velha. (Acho que ser Dona Chica era ser um estado, sem tempo, sem passado, uma espécie de velhice permanente.) Tão fantástico, que tudo parecia saído de um livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não era, então fica sendo – Dona Chica, com sua estampa singular, com suas romãs cor-de-rosa, com a caravela no quadro pendurado sobre a cama, com a casa de pau-a-pique plantada quase como um cenário numa nesga de quintal, com a máquina encantada de fada-madrinha, transformando meus sonhos de menina em roupinha de princesa –, enfim, Dona Chica, minha doce Dona Benta, entronizada para sempre no livro da minha vida.&lt;br /&gt; Ou, nesse meu presente nublado pela fumaça de seus infinitos cigarros, personagem deste meu pequeno livro de histórias, a Dona Chica, costureira das boas, ficará para sempre me ensinando a costurar lembranças e vesti-las na memória.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115759706719098086?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115759706719098086/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115759706719098086&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115759706719098086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115759706719098086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/09/dona-chi-ca-c.html' title='DONA CHI-CA-CÁ...'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115604172619721628</id><published>2006-08-19T19:34:00.000-07:00</published><updated>2006-08-19T20:43:12.090-07:00</updated><title type='text'>LEVA LEANDRA DAQUI</title><content type='html'>Não me lembro ao certo quantos anos eu tinha quando minha mãe me arrumou uma irmã adotiva. Claro que o propósito – ah, como eu conhecia minha mãe! – era me provocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei quem tinha mais ciúmes de quem: eu vivia a reclamar que ela não me dava atenção; ela insistia em me cobrar que eu merecesse menos o carinho de papai... Até que um dia veio morar num casebre abandonado à beira do brejo, lá nos fundos de nossa casa, uma família muito pobre, cheia de filhos e de tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe pronta e solidariamente se apresentou e fez-se amiga de todos. Envolveu-se de corpo e alma (como era seu costume), até tomar-se de amores por uma garotinha que regulava idade comigo. Claro: esse amor só podia ser uma provocação! Cuidava dela com tal zelo e carinho que eu me dilacerava de inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamava-se – lembro-me bem! – Leandra. Era, de fato, linda! Não sei se mais do que eu, mas para mim bastava que tivesse a petulância de competir pelo amor de minha mãe. Tinha que ser mais bonita do que eu para que tudo se justificasse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cuidei dela de longe, porque não tinha suficiente coragem de ser má. Embora meu coraçãozinho se contorcesse de inveja daqueles olhinhos amendoados e dos cabelos mais claros que os meus, emprestei minhas poucas bonecas e dividi meu minúsculo quarto. Mas aguardava silenciosamente que ela se fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que eu quisesse vê-la de novo naquele casebre. Entendia que ela também merecia um destino melhor. Mas, afinal, aquele lírio do brejo roubava meu sossego, invadia minha vida e conquistava sorrateiramente a mãe. Quando à noite me ajoelhava, rezando pro meu Anjo da Guarda, cheia de culpa eu pedia: &lt;em&gt;“Leva Leandra daqui”&lt;/em&gt;. Não podia imaginar que fosse atendida tão depressa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, não sei explicar porque, a menina quis voltar. Então chorou. Quis ir embora. Minha mãe não entendeu como ela podia recusar tanto carinho, banho quente, roupa bonita, boa comida e uma irmã... Bem, uma irmã generosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje me pergunto onde andará Leandra! Leandra, a que não me quis por irmã, nem quis minha mãe como mãe. Quis somente o destino dela, sem boneca, sem banheiro, sem roupa limpa. Mas um destino só dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria também de entender por que chegamos justamente ao que chegamos, como se tudo não passasse de um plano. Ando agora pedindo ao meu Anjo da Guarda que a encontre – numa beira de rio, num casebre qualquer, quem sabe no palácio do Príncipe que veio finalmente tirá-la da linha incerta do meu próprio destino...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Águas de março de 2006&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115604172619721628?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115604172619721628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115604172619721628&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115604172619721628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115604172619721628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/08/leva-leandra-daqui.html' title='LEVA LEANDRA DAQUI'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115586274386388148</id><published>2006-08-17T17:37:00.000-07:00</published><updated>2006-08-18T19:59:00.890-07:00</updated><title type='text'>FOI SÓ UM SONHO?</title><content type='html'>Retorno a este livro virtual com uma nova história que não podia ser adiada. Venho contar um sonho. Sim, um sonho. Um sonho que ronda intermitente esta mente extasiada. Sei que &lt;em&gt;sonhos sonhos são&lt;/em&gt;, mas não pude conter o impulso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja paciente comigo, Margarida. Quem sabe não valerá a pena?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhava com algumas pessoas pela praia, à noite. O mar chamava irresistivelmente e eu me atirei. Ondas violentas subitamente me tragavam. Quem me acompanhava em vão tentava socorrer. Senti que afogava e que havia chegado o fim. Parei de resistir, me entreguei ao vazio e vi meu corpo afundando lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdia as esperanças quando percebi dois braços que me amparavam e suavemente me levavam à superfície. Em sonho pensei que os amigos me resgatavam - haverá quem pensa em sonho? Vi chegar a superfície, ultrapassar a planura das águas e meu corpo continuar subindo. Pude perceber que voava. Assustada, procurei o rosto de quem me levava no vôo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre enormes asas branquinhas aquele rosto perfeito, iluminado por dois olhos radiantes de azuis! Meu Deus, era um anjo! Eu voava nos braços de um anjo. Imagina, isso já lhe teria ocorrido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por certo, diriam alguns, foi só um sonho... Mas eu direi (o corpo já pousado docemente sobre a areia) que &lt;em&gt;sonhos (mais que) sonhos são&lt;/em&gt;. Aquilo que a palavra tem de mais intenso e extasiante, maravilhas inexplicáveis com que nossa mente nos presenteia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que foi, enfim, um sonho e não só um sonho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115586274386388148?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115586274386388148/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115586274386388148&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115586274386388148'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115586274386388148'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/08/foi-s-um-sonho.html' title='FOI SÓ UM SONHO?'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-32726905.post-115558304089600739</id><published>2006-08-14T12:12:00.000-07:00</published><updated>2006-08-14T16:53:49.023-07:00</updated><title type='text'>OLHOS DE HUSKY SIBERIANO</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/320/www.cleir.0.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;Suely era minha manicure preferida: lourinha, bonitinha, simpática e imbatível numa unha encravada! Com sotaque gaúcho preenchia minhas tardes de sexta, ou de terça, sei lá... Nunca tive dia certo de fazer unhas, como tantas mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegava querendo água morna, café (de preferência com biscoitinho) e papo, muito papo pra dar a liga. Adorava maçãs! Falava ela de um lado e falava eu de outro (que não gosto pouco de um bom papo também).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá pelas tantas eu cansava e ela continuava falando e escalavrando meus dedos. Eu me calava e fingia que ouvia as lamúrias dela. Às vezes ouvia sim, e morria de pena. Tinha uma sogra terrível, como quase todo mundo tem (menos eu). Tinha um marido preguiçoso e mulherengo, como quase todo mundo tem (menos eu). Tinha um monte de coisa curiosa, mas a mais interessante era um par de olhos um azul e outro verde, como quase ninguém tem (menos ela). E isso, cá pra nós, era mesmo motivo de orgulho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram muitas as tardes e manhãs que compartilhamos – Suely e eu – as angústias dessa vida. Sempre tive a sensação de que as dela eram maiores que as minhas. Às vezes eu lhe fazia alguns agrados, dava umas voltas com ela no meu carrão, levava ela pro trabalho fixo em um salão. Outras vezes, meio sem jeito pra não humilhar, eu lhe oferecia uma roupa que já não me agradava ou um sapato que não cabia nela (mas ela levava assim mesmo, pra não me desagradar).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela queria voltar pro Sul, mas faltava alguma coisa na bagagem. Eu queria que ela fosse, como uma cigana que lia a mão dela enquanto ela fazia a minha. Eu insistia que ela precisava voltar. Quis ajudar, mas ela era reticente... Até que um dia o que faltava finalmente se anunciou: Suely apareceu grávida. Grávida daquele marido sem eira nem beira e – pior! – grávida também daquela sogra inescrupulosa e daquele destino sem futuro que ela veio buscar no Sudeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí ela não agüentou o tranco. Um dia, sem mais nem menos, largou minha unha por fazer e foi-se embora sem dizer meia palavra. Logo ela que tinha tantas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei entre desapontada e feliz porque sempre quis que, de alguma forma, ela se fosse. Passaram-se alguns anos, arrumei outras manicuras, mas nunca me esqueci dela. Soube que tivera uma filha e se mandara sem nada dizer ao marido. Ele na pasmaceira estava, na pasmaceira permaneceu. Duas mulheres pra cuidar seria demais: – “Não vou atrás!” – disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que hoje, não sei porque hoje, voltei a ter notícias de Suely. Lembra – querida leitora – quando disse que seu orgulho era anunciar uns olhos estranhamente coloridos e desiguais? Pois é, Suely está cega de um deles. O que parecia inusitado era, de fato, uma doença progressiva que lhe levou a visão. Não sei se agora ela vê o mundo pelo olho azul (da fé) ou pelo verde (de esperança). &lt;/p&gt;&lt;p&gt;Só sei que enquanto escrevo esta crônica choro por ela, Suely dos Olhos de Husky Siberiano, com a simplicidade dos meus dois imensos olhos negros e úmidos de ternura.&lt;/p&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Águas de março de 2006&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/32726905-115558304089600739?l=sheherazade1001.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/feeds/115558304089600739/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=32726905&amp;postID=115558304089600739&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115558304089600739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/32726905/posts/default/115558304089600739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sheherazade1001.blogspot.com/2006/08/olhos-de-husky-siberiano.html' title='OLHOS DE HUSKY SIBERIANO'/><author><name>Cleir do Valle</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03633711561248576887</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://photos1.blogger.com/blogger/2087/3581/1600/www.cleir.0.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry></feed>
