Terça-feira, Maio 15, 2012

O DIA DO JUÍZO

Vejo no céu uma enorme esfera prateada. Lentamente a bola se aproxima e pousa em um lugar próximo, causando suspense, estranheza. Paralisada, imaginei que aquilo fosse de repente explodir. Das pequenas aberturas furadas ao redor da esfera começou a vazar um gás branco que lentamente ia tomando conta de tudo. A nuvem branco-acinzentada cobria a paisagem, pairando na atmosfera. Sentia o perigo iminente. Atordoada, pressenti que precisava fugir. Fugir para onde? Não havia resposta. Como bichos acuados, largamos tudo e partimos embolados no único automóvel disponível, eu e os meninos, que não entendiam muito bem o motivo da fuga. A rigor, ninguém percebia, exatamente. Quanto mais nos afastávamos da cidade, mais era possível constatar que o medo e a desolação estavam ali, aqui e em toda parte. Muitos iam e vinham como nós, para lugar nenhum. Os rostos tomados de pânico, agarrados aos filhos, aos animais de estimação e a uma quinquilharia qualquer, que fosse possível pegar. Pelas estradas, muita gente fugia a pé. Trôpegos, retirantes sem destino sob um céu grafite, a multidão pressentia, cada vez mais perto, a nuvem esbranquiçada que se espalhava lentamente. Seu efeito letal era visível na paisagem lunar: campos exaustos e ressequidos e árvores perdendo as folhas, animais agonizantes e mortos. Aceleramos o passo, na intenção de deixar para trás o cenário desolador, mas tudo parecia embebido naquela atmosfera ácida, medonha, pesada, aterradora. Os meninos, inconformados, choravam, questionavam, pediam explicações. Não sabíamos o que dizer, não se tinha mesmo muito lá o que dizer. Apenas a fuga era certa, era necessário fugir, mesmo sem saber para onde. De repente, ocorreu que talvez pudéssemos tentar contato com alguém, saber até aonde acontecia aquilo, embora nossos corações possuíssem, em segredo desesperante, a resposta. Mas os celulares estavam mudos. O rádio do carro não sintonizava freqüência alguma. Ali estávamos nós, ilhados no nada. Avistamos um pouco mais à frente um grupo que se revezava em torno de uma banca. O que viam? Resolvemos ir até lá, em busca de informações, uma boa nova, talvez... Uma mulher vendia flores e, sobre a banca repleta, algumas delas davam sinais de degradação. Murchas, sem viço, algumas queimadas como se tivessem sido mergulhadas em ácido. Mesmo assim as pessoas queriam notícias e flores, disputando as melhores. Numa atitude insensata, duas mulheres começaram uma briga... Corri os olhos pelo descampado. Aves sôfregas, pequenos animais trôpegos agonizavam pelo chão. Outros erravam bêbados e convulsivos, em direção ao nada cinzento que fulgia no horizonte. Olhei mais uma vez os meninos, a desesperança nos olhos, o pavor tomando conta de todos. Avancei contra as mulheres que ainda discutiam, gritei com a força que ainda possuía nos pulmões, Vocês todos não se deram conta do que está acontecendo? Estamos morrendo, irremediavelmente! Nossos filhos e amigos morrem aos poucos, tudo que é vivo está morrendo! O impacto daquelas palavras aquietou um pouco a multidão que se aglomerava, ameaçando entrar na disputa pela flor. Abracei meus filhos, meu marido e chorei convulsivamente. As pessoas olhavam, apenas, perplexas, sem mover um dedo, um músculo. Juntei o pouco de forças que ainda restava e soprei para os céus um pedido a Deus, que me acordasse, que me arrebatasse daquele pesadelo, que me fizesse descobrir que tudo não passava de um sonho ruim. Que não era, ainda, a hora de nada. Ao longe, pressenti passos, alguém vinha vindo, se aproximava devagar, vinha não sei de onde, cada vez mais perto, súbito a mão carinhosa tocou suavemente meus cabelos, dizendo – Acorda, já vou trabalhar. Dei um salto e corri para a janela, arrastei violentamente a cortina do quarto, lá fora fazia um dia azul, de sol brilhante. Árvores verdinhas e mães passeando com seus bebês à sombra, nas calçadas. Abracei meu marido, engoli o choro e agradeci a Deus por ouvir minhas súplicas. Foi só um pesadelo. Não era ainda o dia do Juízo.

Quarta-feira, Dezembro 29, 2010

A ÁRVORE É O NATAL

Desci a ladeirinha embalada. Trazia de cor as instruções: um galho seco, alguns gramas de algodão sem peso, umas caixas de fósforo dissimuladas para presente, um coração que batia no compasso da descoberta. Aprendi a fazer um natal, aprendi o que era o natal! Nunca pensei que fosse coisa que só se aprendesse fazendo, era minha primeira vez!

“Qual foi sua primeira referência de natal?”, ele me perguntou, meio intrigado e instigante. Por certo tinha lá suas lembranças pessoais, e me perguntava pela chance de tirá-las de dentro da caixinha da memória. Ou talvez não, talvez quisesse mesmo conhecer algo de mim que nem mesmo eu conhecia expressamente. O amor tem dessas coisas de poder.

Fiquei pensando e pensando, e só vinha aquela imagem da improvisação da árvore, uma imagem sem folhas e frutos, ressecada como o próprio galho que apanhei lá no quintal. Acho que depois de pronto, gostei; sei lá, não sabia direito que lidava com costumes, tradições, essas coisas de antes; era, para mim, mais novidade que recordação. Mas ainda faltava alguma coisa...

Na verdade nunca havíamos falado naquilo antes, nem na família, nem na vila, muito menos entre amigas. Enfim, natal não era uma coisa falada, nem vivida. Dizem que quando algo não está na linguagem, então não existe. O que era Jesus Cristo para nós, daquele lugar sem natal? Um dia, uma professora vinda de fora nos ensinou a fazer a árvore.

Acho que a árvore trouxe o natal. Agora me lembro de meu pai compartilhando a busca pelo melhor pedaço de árvore, no mato lá fora. Distribuindo a neve de algodão pelos galhos ressequidos. Envolvendo caixinhas de fósforo em papéis coloridos. Acho que me lembro. Meu pai fazendo de mim a menina que tinha uma árvore, a menina mais feliz daquela vila.

Não me lembro de sapatinhos na janela e presentes; de neve e trenós puxados por renas galhudas, porque na vila não nevava e os burrinhos trabalhavam muito durante o dia; de bom velhinho de longas barbas brancas, que não fosse Filhinho Rosa, o mendigo; minha casa não tinha chaminé, não havia ceia com nozes e perus, porque meu pai simplesmente não tinha dinheiro.

Naquele ano, coloquei sobre a mesinha da sala uma coisa maltrapilha, espectral, ao mesmo tempo rude e tão frágil, um artefato pós-moderno que nos atirava para além do que antes talvez fosse a nossa estranha modernidade. Achei bem feio, na verdade, a nossa árvore, mas não disse nada, sei lá, algo me dizia que não sabíamos muito bem o significado daquilo.

A árvore é o natal, hoje eu sei, nossa sala uma outra manjedoura, e agora eu tenho esse poder que o amor concedeu, de fundar memória onde só existia ausência.

Sábado, Janeiro 23, 2010

PASSOU UM FILME NOIR

Fui buscar uma brisa fresca na janela do apartamento – os dias andam de um calor atordoante por aqui! – e, sabe-se lá por que cargas d’água, lembrei-me dela. Mais precisamente, sem pretender qualquer resposta definitiva, perguntei-me por ela, se vivia, se ensinava ainda, se já havia morrido. O nome dela era Rilma.

Para nós, normalistas em ebulição, chamávamos dona Rilma. Naquela altura dos anos 1970, cheias de esperança e arrebatamento diante da iminente chegada à profissão, um traço nos condenava à desconfortável comunhão com dona Rilma: o fato de sermos mulheres, talvez mais do que a vocação comum, ainda que por modos tão diversos.

Mas, vamos a ela. Parecia ter nascido antiga, não velha, exatamente, ultrapassada, talvez. Tinha seus 38, 40 anos, se é que posso avaliar daqui dessa distância que hoje se abriu entre nós. Não parecia vaidosa, nada que não bastasse um batom carmim mal traçado sobre os lábios grossos, emoldurando e borrando dentes claros.

Morava numa casa antiga e mal cuidada, de muro baixo, exatamente em frente ao portão da escola, fato que, aliás, expunha feito um nervo sua rotina de dona-de-casa. A filharada barulhenta, o marido invisível, ela grandona, mulher opulenta de cabelos cacheados e corte irregular, rente ao queixo, sempre com um ar desleixado.

Na verdade, ela toda, visto de longe, não parecia primar pelo asseio ou capricho. Chamada pela campainha da escola soando insistente para o início da aula, Rilma largava a cozinha ou o tanque de roupas, secava rapidamente as mãos na barra da saia, saía porta afora e ia dar conta de sua difícil tarefa de nos educar.

Entrava lentamente pela sala, o pensamento distante, o olhar brotando de uns olhos negros, misteriosamente tristes, parecia atriz de filme noir em preto e branco ou sépia, quando muito, por mais que os vestidos fossem floridos e as roupas antiquadas, avessas à moda por opção ou simples descaso. Era uma mulher inteligente.

Sempre me pareceu que tivesse um mundo perdido dentro de si. Uma Atlântida no fundo das águas barrentas, querendo emergir. Um infinito particular em que a vaidade passava ao largo. Sapatos, brincos e roupas, exceto o batom, não tinham lá relevância. Era sensível, eu sabia. Talvez só eu percebesse e respeitasse seu fundo falso, as meninas sempre se referindo a ela com certa crueldade, como se fosse plana.

Psicologia da Educação era sua disciplina. Pouco aprendi do que falava; quando ela entrava, eu saía para um mundo de suposições; quem seria aquela mulher tão estranha? Lembro, aliás, de uma única coisa que ensinava: a história do cão de Pavlov e a teoria dos reflexos condicionados: alimentado sempre que soava a campainha, o cão salivava a cada novo toque, mesmo na ausência do alimento.

Olhando para a imagem dela guardada num canto da memória, lembrando de um tempo leve, com textura, cheiro, sabor e cor, mas irremediavelmente perdido no passado, pareço salivar também, agora, quando uma campainha distante soa em meus ouvidos quase ao fim de mais um dia, a um ponto de encerrar essa história.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

ÁGUAS BEM PASSADAS

Decididamente águas passadas não movem meus moinhos. Andei pensando que nos tornamos mais parecidos com nossos pais, na medida em que o tempo passa. Na verdade, seres do remendo, vamos compondo nossa colcha de fuxicos. Da minha mãe vejo num relance de espelhos o rosto redondo, de olhar longínquo e soberbas olheiras. E claro, a mania peculiar de contar histórias: detalhadamente, com cheirosos temperos de humor. Eu também gosto disso, de falar das gentes, seus modos, suas marcas, tudo num tempo que pode ser passado, presente ou de inventar futuros.

Do meu pai, entre as tantas tramas dessa peça, guardo uma intolerância com o passado. Melhor dizendo, uma intolerância com saudosismos e conversas lacrimosas, cheias de melancolia, como tanta gente faz. Parece que tudo aconteceu ontem, não naquele passado remoto. Vejo sua reação brusca recusando lembranças empoeiradas. Sábio ao seu modo positivo, esgueirava-se sem desculpas ou ia direto ao ponto: – O que passou, passou... Na minha criativa meninice achava aquilo muito instigante: inventava em meu pai um passado estranho, repleto de verdades inconfessáveis. Pura fantasia!

Hoje que ando rondando por ali, pelo que chamam a idade da razão, continuo fantasiosa, mas me ponho mais de acordo com meu pai. A vida urge e o vento varre lá fora. Tudo é movimento ágil, derramando-se ao longo dos dias. Como o leite pelo chão, não há como devolvê-lo de volta ao pote. Uma torrente de acontecimentos, de fatos e lendas, destinos e sentimentos, nada nunca é estanque. Mesmo aprisionada em fotos, vídeos, flashes de câmeras e memórias refeitas, a vida anda sobre trilhos lubrificados, desliza sobre o espelho das águas. Além, muito além de nossa tola tentativa e de nossa incapacidade de reter.

Por isso vou assim, lépida no presente e faminta de futuro. Sempre pronta a levantar acampamento nas horas mais altas. Sempre disposta a apagar fogueiras e varrer as brasas e as pistas com os próprios pés. E seguir adiante, deixando para trás coisas boas e também ruins. Basta que elas me sigam: não as carrego comigo. Ou que fiquem perdidas na poeira da vida que vivi. Sigo em frente, ávida por novas paragens, mais frescas estâncias, riachos de águas recentes. Aos meus filhos talvez deixe essa curiosa virtude de não remoer lembranças, nunca. De me deleitar com o presente, deixar fluir o passado e inventar o futuro. Caberá a cada um deles a escolha.

Haverão de querer os cacos que ofereço para compor os seus próprios vitrais?

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

A VIDA NÃO É UM LIVRO

Desci as escadas e já na rua observei que a cidade havia sido tomada por uma estranha névoa, uma atmosfera muito antiga, a cidade em sépia, tão igual e tão distante de tudo que sempre fora, quase perdida como Avalon entre as brumas. Por certo alguma providência, a divina Mão, quem sabe, preparava o cenário de um reencontro.

Não seria a primeira vez que veria Tereza. Nossas vidas se encontraram faz muito tempo, mas a correnteza levou... Essa era a questão: um reencontro quinze anos rio abaixo. Sim, quinze anos com seu ritmo próprio, ora lento, ora veloz, entre ligeiros contatos e frustradas tentativas de religar as pontas do que havia escapado. Quinze anos é muito tempo e tudo havia sido inútil, até então.

Dessa vez acho que é pra valer! Voltei a morar na mesma cidade, Niterói ainda estava ali e ela também. De repente, cruzamos nossos passos apressados, quase tropeçamos na Pedra de Itapuca. Um susto, a surpresa e lá estávamos feito crianças roubando mútuas histórias. Faltava fôlego! Afinal, era tanta coisa que o tempo furtara. Lembramos na última hora que telefones existem, trocamos números e ficamos a espera...

Pronto, em uma semana estava tudo marcado. Confesso que o coração andava meio sobressaltado. Um coração nostálgico, amolecido, girando entre rodas gigantes, saias de baianas, moinhos de vento. As lembranças iam e vinham, desconfiadas feito pombas famintas surpreendidas no chão. Será que ela também pensava nesse encontro?

Do táxi liguei para ela e no telefone sua voz parecia cada vez mais próxima! Ela aguardava numa esquina: quinze anos, afinal, não foram mais que um demorado engarrafamento. A vida e ela, com seus olhos em stand by, de pé sobre as próprias pernas, pernas de Tereza que o poeta celebrou, mais a cidade e a esquina...

Tereza entrou falante no carro, disfarçava a tensão. Frases de efeito, piadas de arquivo, tentativas vãs de emendar conversa, logo abortadas. Não estava na hora ainda, mas já chegaria. No bar, enfim, as palavras e a sede e o chope foram aos poucos restabelecendo a alquimia da amizade. Sim, dessa entidade chamada amigo que a gente reconhece sempre, que bota aspas no tempo. Amigos, esses seres dignos de fé!

Mas eu queria mais! Queria saber o que estava escondido lá no fundo da bruma que havia envolvido a cidade, a mesma bruma que julguei perceber nos olhos de Tereza. Enquanto ela falava dos homens que se foram e do dinheiro que não juntou, aquilo tudo foi se tornando espesso, adensando um sussurro de experiência. Sim, um lamento de experiência pesando toneladas de razões...

Trovões e raios cruzaram o céu dos olhos dela. Dos meus solidários olhos, desceram tímidas gotas que se perderam na liquidez do sereno, ninguém viu. Deixei Tereza em casa lá pelas tantas, já bem tarde, quando só a cidade e os deuses não dormem. Saciada de lembrança, voltei para casa e pousei a cabeça no frio bom do travesseiro.

Sonhei que na travessa onde ainda vive Tereza, acho que só nela, desceu uma forte enxurrada naquela noite. O dia seguinte amanheceu claro e azul, prometendo alvíssaras no próximo capítulo do infinito livro das revelações de Tereza.

Terça-feira, Maio 19, 2009

PROGRAMA DE ÍNDIOS (ou a outra lição de mestre Darcy)

Ideologia: ainda há quem queira alguma pra viver?

Ah, como foi ingênua nossa crença, por ela nos atiramos na miúda política do interior. Meu marido era professor, fora eleito vereador e, como aquilo não tinha porto, era candidato a deputado. Pulmões cheios de ar e cigarros para gritar por uma classe, por uma esperançazinha de tudo fazer diferente, para mais e para melhor, é claro.

Mas isso é assunto para outras longas e controvertidas conversas. Quem sabe um dia não faço história delas... Hoje gostaria de contar uma lição que essa curta passagem pela política – muito digna, muito honrosa, mas infeliz e decepcionante para ele – trouxe para mim, particularmente, que nem eu nem ele pudemos esquecer.

No agito de umas eleições recebíamos visitas ilustres. Eram candidatos perseguindo eleitores, procurando partidários mais comprometidos que não inflacionassem seus cobiçados votos, enfim, essas coisas que hoje todo mundo mais ou menos sabe. Não sabíamos, naquela época, mas fomos aprendendo as coisas por dentro.

Naquelas tardes e noites cheias de surpresas, uma foi especial. Soubemos longamente da visita dele, articulada por prestígios e poderes locais. Chegaria para a reunião das lideranças, o discurso e o comício. Seria oficialmente recebido pelo presidente do partido, que ofereceria um reservado jantar, com as pompas que lhe cabiam. Fomos também nós.

Confesso que sabia, em termos, de sua importância na cena intelectual do Brasil. Mas não avaliava bem o que seria ver de perto, ouvir os sons e reconhecer pelo tato de um beijo no rosto, aquela pessoa falante. Falante e fascinante! Sem mais delongas, estou falando de Darcy Ribeiro. Mas, qual Darcy, o intelectual, o político brizolista ou o indigenista?

A noite estava só começando e todos agitadíssimos disputavam a cadeira mais próxima da dele. Quem sabe um olhar mais demorado, uma aprovação, o ouvido dele para as vantagens e as balelas mais mirabolantes da politicagem local. Observava de longe, meio atônita e um tanto perdida... Fui me sentar diante da televisão na sala, para distrair.

Distraída estava quando invade a sala o séquito de ávidos correligionários: “Aonde vai, Professor?” Darcy à frente dizia: “Agora, vou assistir Pantanal. E vou me sentar ao lado desta bela mulher de botas longas”. A “bela mulher” – acredite, eu juro! – era eu. “Quando acabar a novela, retomamos a reunião”. Pode imaginar meu desconforto?

Ali estava eu, dividindo o sofá com uma das figuras mais respeitadas e brilhantes da intelectualidade brasileira daquele século, assistindo novela! Sofri vertigem, carecia urgentemente de frases e mensagens inteligentes... Ele devia perceber minha angústia. Tentava relaxar com aquelas conhecidas brincadeiras de que jamais morreria de pneumonia dupla. Enfim, quem precisava de assunto ao lado do professor Darcy?

Rapidamente ele assumiu o leme do barco, ou melhor, da chalana, e começou a falar da novela. Seus olhinhos sob as grossas sobrancelhas brilhavam com as deslumbrantes imagens do Pantanal. Ele falava de sua vida com os índios, da sua existência mágica. Sua alegria era contagiante e eu me vi rindo como numa conversa de comadres. Raposas e políticos se acotovelavam ao redor do sofá, ansiosos e impotentes...

Darcy queria ver novela e falar de suas aprendizagens e descobertas no convívio com os índios. No auge da ansiedade, enquanto na novela o marido descobria a traição da mulher, nosso líder partidário regional tentou, de maneira pouco feliz, é bem verdade, se mostrar nos seus princípios. Cheio de empáfia, arriscou o comentário: “Eu não traio! Nem meu partido, nem meu eleitor, nem minha mulher!”

Mestre Darcy, atropelando as palavras, como sempre, rapidamente retrucou: “Pois eu não traio minha vontade, minha verdade, nem meus instintos. Eu não traio a mim mesmo”. Um longo silêncio, incômodo e didático, tomou conta da sala. Professor Darcy acabara de ensinar mais uma lição! Foi assim que ele morreu, não traindo, sobretudo, o desmedido amor que tinha por si mesmo e por este imenso Brasil.

Ah, como aprendi sobre ideologias de viver, naquela longa noite. Obrigada, Mestre!

Quinta-feira, Agosto 14, 2008

AS PERNAS DA MENTIRA

Era sempre no finzinho de tarde que eles chegavam, quando o café borbulhava no grande coador de flanela, precipitando-se pela boca do bule de alumínio. Pronto o café, um bico de galo arrematado em crochê evitava as moscas, enfeitava e perfumava tudo bem ali, em cima do fogão à lenha.

De banho tomado, nos acomodávamos empoleirados em braços de cadeiras e banquinhos, agachados ou mesmo despossuídos pelo chão. Eles apontavam lá no terreiro, entre a casa e a jaqueira que brotava imensa, com suas raízes alongando-se como serpentes, ameaçando engolir os visitantes.

Chegavam calmamente. Pareciam nobres pelos trajes pouco comuns ao nosso gosto e costume. Ele sempre de chapéu, uma bengala imponente nas mãos, bigode grosso e grisalho. Ouvíamos a voz forte que mais impunha do que desejava, repetidamente, um “boa noite, boa noite!”, desde longe.

Ela era doçura de pela clara, cabelos lisos sempre presos, cuidadosamente retorcidos num coque elegante que lhe caía muito bem. Usava camafeu e brincos de marcassita. Vestia-se com sóbria elegância e falava baixo, serenamente. Tinha olhos vivos como os de uma menina que o tempo perdera de conta, mas não de vista...

Naquela época, eu não conhecia ainda Monteiro Lobato. Intuía que eles eram pessoas dos livros, de imagem, fala e perfume. Percebo agora que eles saíram de um conto, do Sítio mais acertadamente.

Chegavam, finalmente! E se instalavam nas melhores cadeiras, eram visitas afinal! Então começava uma longa conversa, ou melhor, um longo monólogo que ninguém atrevia contrastar. Seu Arnaldo falava de um modo de assustar, em ambas as possibilidades de significado que essa palavra tem.

Tinha preferência pelas histórias de terror. Era um caçador, daqueles que guardam na sala a cabeça empalhada dos animais abatidos, estranhos troféus, sei lá, meio patéticos, nunca entendi direito... Tinha início, então, a mentirosa sessão de narrativas, pura irrealidade que divertia, tornando menos dura a realidade insuperável daquela Macondo.

Seu Arnaldo e Dona Cecília (um nome que vibrava entre coisas, porcelana, prata e azul), Seu Arnaldo e Dona Cecília eram amigos dos meus avós. Sempre bem vindos à casa humilde na entrada da Vila, mesmo que duvidássemos da carne e do osso de que eram feitos ou do fantástico e hiperbólico discurso daquele homem incomum.

Sempre que saíam, quando a tarde já varava a noite alucinada de Itambi, permaneciam alguns dos nossos pela sala, rindo aqui, comentando ali, ponderando uma a uma todas aquelas improbabilidades. Estava decidido: Seu Arnaldo era personagem de um livro. Mas as crianças (tão crédulas!) ficavam marcadas para sempre sob o misturado impacto do medo e da fantasia que tudo aquilo inspirava.

Numa noite dessas, ele contou a história, densa e teatral como sempre, de uma caçada com seu desfecho alucinante. Bem caminhava por aqueles matos quando o choro estridente, embora remoto, de uma criança fez com que se apartasse dos companheiros. Perdeu-se na busca do choro, antevendo a criança que, em desespero, chorava. Um lindo bebê apareceu ali, estranhamente limpo, metido entre as raízes da grande árvore.

Imediatamente abaixou-se e pegou a pobre criancinha, frágil e aflita, talvez faminta. Foi quando o bebê se transformou numa criatura diabólica que fedia e urrava, expelindo fogo pelos olhos! Afastou-a de si benzendo-se com o sinal da cruz. Numa grande explosão, a coisa desfez-se em fumaça, inundando tudo com o cheiro sufocante do enxofre.

Silêncio na sala. Ninguém respirava, sequer. Cada qual decidia intimamente para si o maravilhoso dilema que dispunha em dois o crer e o desdenhar: o crer para acrescentar ao que já se sabia da vida e o desdenhar para sempre esquecer. Não se falou mais nada, até que eles fossem embora naquela noite.

Muito pouco se falou também depois. Não tinha consolidado ainda a língua que exprimia sentimentos tão confusos. Meus tios procuravam rapidamente seus aposentos, cobriam-se dos pés à cabeça e dormiam um sono denso, cheio de suspeitas. Os primos andavam uns empencados nos outros, siameses de olhos esbugalhados, procurando conforto.

Eu tratei logo de procurar o meio da cama entre papai e mamãe. Aprendia em lições esse segredo maior de todos os órfãos: pode haver no mundo melhor lugar para esconder-se de nossos medos? A casa foi ficando silenciosa. A voz do Seu Arnaldo resiste ainda nas paredes ocas de barro batido.

Verdade ou mentira? Não sei dizer, mas daquela noite em diante, algumas luzes nunca mais se apagaram na nossa casa e na Vila, dentro de mim.